Sou, desde que me recordo, contadora de histórias; como, de resto, todas as crianças. Aprender a escrever foi para mim uma revelação – não só porque as próprias letras adquiriam vida assim que as desenhava, mas porque se me tornou possível materializar a imaginação. Escrevia para mim – porque o que transmitimos, ao materializar no papel ideias, imaginação, opiniões, contos ou poemas, são, na realidade, fragmentos e reflexos da nossa alma, demasiado preciosos para expor à luz do Sol; assim considerava a jovem introvertida que se escondia num canto do jardim do liceu para escrever contos e poemas no caderno, disfarçados entre os exercícios de Matemática. E durante muito tempo continuei a escrever para mim, porque os tais fragmentos da alma insistiam em escapar para o papel... Há alguns anos, três amigas minhas tiveram acesso ao manuscrito da “Trova de Caio e Benilde”. Então compreendi que há fragmentos de alma que podem e devem ser partilhados.
Data Publicação: 12-2015
Número de Páginas: 186
Os dias sucediam-se tranquilos na aldeia amuralhada de Nenhures, no coração do Alentejo medieval. A paz que ali se respirava não era alheia ao carácter despótico de D. Furibundo Furioso, o senhor feudal que governava Nenhures com pulso de ferro. Na aldeia vivia a jovem Deuladeu, filha do carpinteiro, rapariga airosa e diligente que, tal como as amigas, não aspirava senão a um casamento estável e a um rancho de filhos obedientes e trabalhadores. Mas os planos de Deuladeu acabam por sofrer uma trágica reviravolta quando Abel, o aprendiz do pai, um forasteiro vindo ninguém sabe de onde, se apaixona por ela e a toma para esposa, envolvendo nos turbilhões do destino o algoz Almiro e a curandeira Mirtila. Investida de uma coragem de que se desconhecia capaz, a jovem Deuladeu deita mão de todos os recursos para recuperar e proteger a família.
Data Publicação: 05-2017
Número de Páginas: 632
Reino de Leão, século XI. Caio é enviado para o castelo das Fragas, na inóspita costa cantábrica, a fim de iniciar a sua formação de cavaleiro. O seu espírito independente e a atitude irreverente desagradam à corte do padrinho, mas suscitam a simpatia do povo do domínio. Integrado como escudeiro na mesnada das Fragas, participa no cerco de Toledo. Aí é armado cavaleiro de el-rei Afonso VI de Leão e Castela, e permanece alguns anos combatendo na fronteira efervescente do al-Andalus. Um dia, inesperadamente, é chamado a regressar ao Norte para ocupar o lugar de alcaide do castelo das Fragas, ordem que cumpre a contragosto. Com o passar do tempo, no entanto, Caio vai-se apercebendo da forte ligação que o prende ao domínio e às suas gentes, e conhece Benilde, a donzela a quem decide dedicar a sua vida. É então que uma sucessão de intrigas se interpõe entre os jovens apaixonados e a felicidade sonhada…
Data Publicação: 10-2018
Número de Páginas: 574
A Guerra Civil devasta o país, opondo os Estados do Norte progressista e industrializado ao Sul eminentemente rural cuja economia assenta nas grandes plantações de algodão e de tabaco e no trabalho escravo. Filho de um conceituado cirurgião da capital nortista, Edward Hamilton encara a secessão sulista como uma segunda Guerra da Independência, reconhecendo à Confederação o direito a libertar-se das leis impostas por Washington e constituir uma nova nação, baseada nos direitos dos Estados previstos na Constituição.
Opondo-se à família republicana e abolicionista, Edward é expulso da casa paterna e decide alistar-se na Brigada Stonewall do Exército Confederado. Aí trava conhecimento com um grupo bastante heterogéneo de camaradas, com quem partilha as glórias e as misérias da campanha, de batalha em batalha até à rendição sulista em Appomattox. Desprovido de meios e de apoio familiar, Edward aceita a hospitalidade de um antigo adversário, o cínico plantador Malcolm Harrison, cujas relações obscuras acabam por envolvê-los com o Clã Ku Klux…
Data Publicação: 05-2019
Número de Páginas: 144
Ali é o escravo pessoal do filho mais novo do rei Mustafá, o caprichoso príncipe Abdalá, que adora pregar partidas a toda a gente. Um dia, o rei envia Ali ao mercado em busca de um presente de aniversário valioso e original para Abdalá. Sem saber que trazer, pois Abdalá já tem tudo o que um rapaz da idade dele pode desejar, Ali acaba por aceitar uma “ânfora de sonhos” das mãos de Zora, a misteriosa “mercadora de sonhos” do reino. Na ânfora vive um casal de génios. Durante a festa, Abdalá quebra a ânfora de propósito, libertando os génios. Estes vingam-se conjurando uma vaga de destruição sobre o reino e desaparecem em direcção ao mar. O velho rei Mustafá fecha-se nos seus aposentos. Ibraim, o filho mais velho do rei, manda chamar Zora ao palácio. Deixando o reino a cargo do vizir, Ibraim, Zora, Ali e Abdalá fazem-se ao mar em busca dos génios, esperando conseguir convencê-los a anular o feitiço. É então que são apanhados por uma tempestade que os leva a um reino longínquo, onde vivem uma série de aventuras e peripécias antes de conseguirem alcançar o seu objectivo.
Ana Ferreira da Silva nasceu em Lisboa, a 7 de Maio de 1957. Filha de
militar, viveu os anos mágicos da infância em Madrid, na linha de Cascais e
por fim em Moçambique, onde fez transição para o liceu e para a
adolescência. Este contacto precoce com culturas e mentalidades diversas
contribuiu para uma salutar abertura de espírito, mas também para a
consolidação de um carácter introspectivo, fruto dos frequentes
desenraizamentos que iam cerceando amizades embrionárias. Ainda em
África, ensaiou os primeiros passos em poesia e conto.
Aos 14 anos, já em Portugal, interessando-se pelo romance histórico,
começou a esboçar a sua primeira obra de fôlego, que viria a sofrer
alterações e aperfeiçoamentos até atingir ela própria uma “idade adulta”.
A par da “obra-prima”, continuou a escrever poesia e contos breves.
Recentemente retomou a escrita de romances históricos.
Escrevendo para si própria, tinha intenção de manter inédita a sua obra; a
crítica entusiástica de um grupo de amigas levou-a a reconsiderar e a
trazer para a luz do dia a novela medieval “Os Algozes de Nenhures”, a
que se seguiu a publicação da “Trova de Caio e Benilde”. "Quando os Lilases Tornarem a Florir", cronologicamente o primeiro romance histórico da autora, foi lançado em Novembro de 2018.
Colaborou com o poema “Esta Noite Dançámos na Eira”, na colectânea
“Entre o Sono e o Sonho”, publicada pela Chiado Editora em 2017, e com os contos "O Velho do Cavaquinho" e "O Natal dos Pardalitos" para as colectâneas "Natal em Palavras" da mesma Editora (2018 e 2019, respectivamente).
Finalista do III Concurso Literário de Edições Vieira da Silva (Março de 2019); dois dos seus poemas ("A Avó" e "Armistício") foram seleccionados para integrar o livro comemorativo do evento.
É licenciada em Medicina pela Universidade de Lisboa, tendo trabalhado
nos Hospitais de Santa Maria (monitora, e posteriormente assistente da
Cadeira de Biofísica da FML), Torres Vedras (Internato Geral e Internato de
Cirurgia Geral) e Santo António dos Capuchos (Internato de Anestesiologia
e actividade assistencial). Actualmente é anestesista do quadro civil do
Hospital das Forças Armadas, mantendo a escrita como actividade
paralela.
É sócia da SOPEAM (Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos)
Sete musas libertaram o vento,
Sete gritos de flauta o rasgaram!
Sete espadas de luz o céu talharam,
Sete águas brotaram ao chão sedento,
Para dançarmos esta noite na eira!
Dançando a fogueira nos meus cabelos,
Labareda a bailar no coração,
O bosque agitou selvagem refrão.
- Baixem as belas negros véus de zelos:
Mi amor e eu, juntos dançando na eira!
Nossos braços qual desfraldadas asas,
Nossos pés, airosas folhas de Outono,
Bailam, flutuam e voam sem sono;
No velho chão esmoreçam já as brasas,
Que a nós não cansará dançar na eira!
Recolham as sete musas o vento
E cesse das sete flautas o grito;
Embainhem-se as espadas do infinito,
Sete fontes sequem no chão sedento,
Que nós dançaremos ainda na eira!
Pois já tudo sossegou em redor,
Música, vento, o bosque também;
Em paz repousa nosso mundo além;
Aticemos nós o fogo do amor,
Esta noite que dançámos na eira!
Paz. As cinzas da terra massacrada
Beijam os corpos e partem com o vento;
E já os frios despojos vão soçobrando
No escuro lamaçal da derrocada.
De alvas pombas passa leda revoada,
Cantando a primavera da nova era;
Em negra solidão uma águia espera
Em vão o toque límpido da alvorada.
Estreitam-se mãos e abraços nos salões,
Com festas e risos saúda-se a paz;
E no campo sangrento agora jaz
O destino das novas gerações.
E eis com as cinzas e o vento parte a águia
Em demanda de outras gentes e terras;
Pois sabe que armistícios não travam guerras,
Nem saram corações feridos de mágoa.
Na grande cidade, nos túneis do “metro”, à porta dos centros comerciais, de Verão e de Inverno, para quem passava, não passava de um velho de barba por fazer, encolhido num casacão engelhado, sentado de cavaquinho no colo.
No entanto, Vicente – pois todos os velhos têm um nome, e este chamava-se Vicente – Vicente, dizíamos, nem sempre fora velho, nem sempre fora pobre de tocar cavaquinho a troco de uma sopa quentinha. Vicente tinha um passado que por vezes lhe trespassava a memória como um relâmpago e lhe acendia o esboço de um sorriso nos olhos já um tanto velados: eram memórias de tempos em que era conhecido pelo nome, quando tocava violino numa grande orquestra e as famílias abastadas o convidavam para jantares, serões e saraus distintos... Mas tudo passa, e as reviravoltas da vida levaram Vicente de aldeia em aldeia, de feira em feira, de festa em festa, de taberna em taberna, o precioso violino trocado por um humilde cavaquinho, nada solene nem clássico ou erudito, mas todo rapioqueiro, espalhando alegria entre os moços e os menos moços, fazendo girar os pares nas eiras e nos casórios. A despreocupação de uma vida mais simples, sem a pressão dos compromissos formais e a pompa antiquada dos salões onde a orquestra costumava actuar, compensava de longe a passagem da fama ao anonimato. E toda a gente o conhecia por Vicente do Cavaquinho e o cumprimentava à passagem.
A última reviravolta da vida devolvera-o à grande cidade – já não uma virtuose do violino, mas um pedinte como tantos outros, sem rosto, sem voz, sem nome, de cavaquinho no colo e um velho boné à espera de trocos.
Aproximava-se o Natal, e a cada Natal que passava, as pessoas pareciam mais apressadas, irritadiças e quezilentas, acotovelando-se na demanda dos presentes em falta, porque ainda faltava mais um presente, afinal dois ou três... Ninguém parava a contemplar as iluminações e os presépios, ninguém prestava atenção aos cânticos de paz – ninguém queria saber do significado do Natal, e lá se iam todos acotovelando, insultando e protestando, carregados de sacos e caixas, no seu rodopio de compras sem significado...
Uma menina deixou-se ficar para trás. Os seus grandes olhos fitaram Vicente com curiosidade.
- Sabes tocar músicas de Natal? – perguntou.
- Mas as lojas não estão todas a tocar músicas de Natal? E onde estão os teus pais?
A menina olhou em redor e desatou a chorar.
- Não... não consigo vê-los em parte nenhuma!...
- Não tenhas medo. Senta-te aqui neste degrau, que vou fazê-los aparecer!
A menina sentou-se. Enchendo-se de brio, Vicente levantou-se e arrancou às cordas do cavaquinho as velhas canções de Natal da aldeia.
A multidão estacou, maravilhada. Uma voz acompanhou o cavaquinho; e outra e depois outra, e num instante toda aquela gente se deu as mãos a cantar e a dançar.
- Ali estão os meus pais! – a menina correu a abraçá-los.
Nessa noite, Vicente tornou a comer a consoada em família.
Uma chuva impiedosa descia em cortina espessa sobre o pinhal, silenciando a doce serenata das aves ao entardecer e sobrepondo-se ao rugido das ondas do rio tumultuoso que, lá em baixo, insistia no combate inglório contra as margens escarpadas que o estrangulavam. A poeira do caminho transformava-se em lama, a lama transformava-se em poças escorregadias que alargavam em devaneios de lagoa. Uma luminosidade cinzenta acabava de substituir a última claridade do dia.
Ensopado até ao mais recôndito da alma, soltei uma praga e amaldiçoei a minha obsessão pela contemplação da paisagem e pela fotografia que me tinha deixado para trás e tanto retardado. De acordo com as instruções do meu mapa rudimentar, já deveria ter chegado ao albergue onde havia de encontrar-me com o meu irmão e os nossos amigos, ao fim da tarde. Talvez a chuva torrencial estivesse a atrasar-me, fazendo-me buscar, a cada cinquenta ou cem metros, o abrigo natural de uma fraga; talvez o peso das botas endurecidas pela água e pela lama estivesse a contribuir para o meu atraso… ou talvez me tivesse perdido! O meu espírito foi imediatamente assaltado pela recordação de um pesadelo recorrente da infância, em que me via abandonado à noite num pinhal embalado por uma aragem fria, rodeado de vozes de corujas, mochos, cucos e lobos, sobre um fundo de interminável restolhar de folhas secas e de entrechocar de ramos e estalar de pinhas. No meu pesadelo, corria desnorteado à procura de uma luz, uma lanterna antiga pendurada à porta da única habitação da floresta, uma casa de granito a cuja porta eu batia, dividido entre o pavor de passar a noite ao relento e o terror do desconhecido. Recordo-me de acordar aos gritos assim que a porta se entreabria com grande chiadeira e uma voz gutural me convidava a entrar…
Procurei racionalizar a situação. Admitindo que me tivesse perdido, não poderia ter-me desviado muito do caminho. Mais cedo ou mais tarde a chuva haveria de abrandar, e apesar do rolar contínuo da grande catarata que desabava sobre a minha cabeça desprotegida, ainda conseguia distinguir o constante protesto do rio à distância habitual, o que significava que continuava a seguir em frente, paralelo à margem. Mais meia dúzia de passos, e haveria de encontrar o abrigo de uma rocha ou de uma pequena gruta; então procuraria na mochila ensopada a pequena lanterna, que talvez funcionasse ainda, e tiraria da precária protecção do bolso das calças o mapa… Esta ideia reconfortou-me e encorajou-me ao longo de mais de um quilómetro por entre pinheiros, cedros, eucaliptos, carvalhas e arbustos, até acabar por me convencer de que não tornaria a encontrar qualquer espécie de abrigo até… até… Quem sabe?...
Quando a chuva por fim amainou, era noite fechada. As botas enterravam-se na lama até aos tornozelos, e eu não conseguia descortinar o tronco de uma árvore um palmo adiante do nariz, pelo que urgia descobrir a lanterna, fazendo os possíveis por não entornar o conteúdo da mochila; mas tal como receava, a humidade entoara o canto fúnebre da minha fiel luminária. Não me restava senão tentar seguir em frente orientando-me pelo canto selvagem do rio, pois sentar-me a descansar na lama estava absolutamente fora de questão. Prossegui o meu caminho de um passo hesitante e braços esticados, tacteando troncos, ramos e arbustos, qual cego abandonado em labirinto diabólico. Para não desanimar, comecei por assobiar; depois cantei em voz cada vez mais alta, na vã esperança de que alguém me ouvisse e viesse em meu socorro…
Pouco a pouco senti-me invadir pelo desconforto premonitório de uma reacção de pânico, como se estivesse a viver o velho pesadelo. Se, pelo menos, pudesse partilhar aquela eternidade assustadora com o meu irmão!... O meu irmão, dois anos mais velho do que eu e meu sábio mestre de travessuras e bom senso, ter-me-ia sugerido imaginar-me uma personagem épica atravessando e vencendo dificuldades para cumprir uma gloriosa missão. Assim, fiz ressuscitar do fundo da memória os heróis das nossas brincadeiras, cavaleiros ousados de tricórnio emplumado e punhos de renda, pistola de pederneira na mão e florete à cintura, assaltando diligências para capturar gordos e cruéis funcionários da coroa que se serviam vilmente dos seus títulos e pergaminhos para roubar em proveito próprio os pobres camponeses, sem respeitar sequer viúvas ou órfãos; e munido de toda a bravura dos nossos heróis de antanho, avancei outros poucos quilómetros, sem saber ao certo em que direcção.
Entretanto, a chuva tornou a engrossar, fazendo-se acompanhar de uma ventania feroz de arrancar lamentos e ramos às árvores, levantando remoinhos de folhas e galhos que me turvariam a visão, acaso conseguisse destrinçar as sombras que me rodeavam. Sem outra expectativa para além de ter de caminhar através das horas da noite até ao amanhecer, continuei a arrastar os pés pela lama, a roupa colada ao corpo, uns vagos arrepios a percorrer-me a espinha, os músculos das pernas retesados de dor e humidade, a cabeça alheada a levitar entre a necessidade de seguir em frente e a incerteza de conseguir fazê-lo por mais meia hora.
De súbito, pareceu-me distinguir, à distância, o tremular de uma luz. Era certamente o meu irmão que vinha à minha procura. Tentei gritar com todo o fôlego do meu desespero, mas a voz morreu-me no céu-da-boca, enrouquecida pelo frio e pelo medo. Conjurando as forças e a pouca coragem que me restavam, avancei aos tropeções em direcção à lanterna, que parecia aguardar-me, imóvel. Rindo como um tolo, rezando e entoando loas em voz alta como um verdadeiro e grato peregrino, fui-me aproximando, antegozando o raspanete que soaria aos meus ouvidos como um cântico celestial. Só mais umas dezenas de passos… Só mais…
Estaquei, aterrado. Diante dos meus olhos erguia-se uma casa de granito de dois andares, com uma tabuleta de ferro forjado acima da pesada porta de madeira de carvalho. A luz que eu vira à distância, provinha de uma grossa vela colada a um prato de barro poisado no centro de uma mesa corrida. Antes que pudesse decidir-me a bater, a porta abriu-se com um chiar de ferragens velhas.
- Entra, rapaz! – convidou uma voz amável. – Vem aquecer-te à lareira e tomar uma boa malga de sopa, que com este tempo, não se recusa uma côdea a um mendigo!
Boquiaberto, pus-me a observar a figura mirrada da velhinha que me abrira a porta: de vestido negro a rasar os tornozelos, grossas meias de lã enfiadas em tamancos de madeira, touca de folhos e avental de um branco impecável e um xaile cinzento pelos ombros, a minha anfitriã parecia uma personagem trazida de tempos antigos.
- Onde… onde é que eu estou?... É que, sabe, perdi-me na floresta, e… - balbuciei.
- Estás na Hospedaria do Cavalo Negro – a anciã suspirou de enfado e escondeu uma madeixa grisalha que se escapara da touca. – Tiveste sorte de não ser apanhado pelas quadrilhas que andam a monte com este tempo, ou de cair numa armadilha de lobos… Mas entra, rapaz! Fica descansado, não costumamos exigir dinheiro a peregrinos e mendigos! Não sei bem qual deles poderás ser, com essa roupa esquisita e esse bornal enorme às costas… Oh! Trazes uma concha de vieira presa ao bornal?! Peregrino a Compostela? E vens sozinho? A cumprir promessa pela tua pobre mãe doente?... Ou… Ora, que importa?! Senta-te, já te trago de cear!
Sentei-me tão próximo da porta quanto possível, com a mochila bem presa entre os calcanhares, e pus-me a observar a sala enquanto a minha anfitriã se ocupava de mexer a sopa que fervia dentro de um grande caldeirão de ferro fundido. Das paredes de granito escorria uma humidade pegajosa cheirando a ranço. As janelas eram estreitas e escassas para o tamanho da sala, e apesar de não terem cortinas e estarem razoavelmente limpas, era óbvio que, mesmo ao meio-dia, não deixariam entrar luz suficiente para ler ou escrever. Duas mesas corridas e respectivos bancos constituíam todo o mobiliário, e duas fileiras de pregos espetados ao longo das paredes faziam de cabides. A um dos cantos, a lareira servia de fogão, e no canto oposto uma escada íngreme de degraus irregulares conduzia ao piso superior através de um alçapão.
- Aqui tens a tua sopa! – a anciã interrompeu a minha observação. – Aproveita enquanto está quente! Suponho que não terás uma moedinha, por acaso?...
Revirei os bolsos: nada! Lembrei-me então de que tinha dado a minha última moeda a um mendigo à porta de uma capela. Perante a minha atrapalhação, a estalajadeira estendeu-me uma pequena medalha de bronze com a figura de um cavalo gravada.
- Guarda-a muito bem! Servir-te-á de salvo-conduto se fores abordado por alguma quadrilha pelo caminho! Daqui a Compostela, ainda és capaz de ter maus encontros!
Agradeci, guardei a medalha no fundo do bolso, e terminei a refeição em silêncio, sempre sob o olhar inquisidor da velhinha. Assim que levantei os olhos da malga, ela indicou-me uma cortina por trás de mim, que dava acesso a um pequeno cubículo onde caberia pouco mais do que a enxerga. Tornei a agradecer, instalei-me no colchão de folhelho crepitante, e num instante adormeci.
Deveria passar da meia-noite quando fui despertado por um sussurrar de vozes do outro lado da cortina. Apurando o ouvido, percebi que os recém-chegados pertenciam a uma quadrilha de assaltantes das estradas, que discutiam entre si se haviam ou não de matar-me, e de que forma o fariam, e onde esconderiam o meu corpo. Engoli em seco, imóvel como uma estátua, incapaz de imaginar maneira de fugir do quartito sem janela. Então, acima do murmúrio geral, distingui a voz da estalajadeira:
- Não! Desgraçados! O rapaz é um mendigo, peregrino a Compostela! Nesta casa ninguém toca num fio de cabelo de um peregrino! Aliás, dei-lhe uma das nossas medalhas! Ele que chegue são e salvo ao destino, e que reze pelas nossas almas! E agora que já esvaziaram as malgas e devoraram a broa, desapareçam para os vossos quartos!
Um coro de interjeições desanimadas, um tropel de botas escada acima, e logo a hospedaria mergulhou no silêncio e na escuridão. Lá fora, o temporal uivava como uma alcateia. Apertei a medalha entre os dedos, a acabei por adormecer…
- Eh, pessoal! Venham cá! Encontrei o João! Eh, João! Acorda, preguiçoso!
Abri os olhos e dei de caras com o meu irmão. Atrás dele, um semicírculo de amigos e guardas-florestais sorridentes e aliviados aclamava ruidosamente a descoberta. Olhei em redor, e percebi que me encontrava num exíguo abrigo de pastor, deitado num monte de ervas e caruma. O meu corpo foi percorrido por um arrepio.
- Não… não compreendo!... Onde está o meu colchão de palha?... O quarto?...
- Estás a delirar de febre, palerma! Fizeste-nos passar a noite ao relento à tua procura! E que noite dos diabos!
- Graças a Deus, ele teve o bom senso de se meter aqui! – comentou um dos guardas-florestais. – Até ao albergue ainda são uns bons quilómetros, e este é o único abrigo de pastor que persiste nesta área! Foi uma sorte tê-lo encontrado!
- Mas… e a Hospedaria do Cavalo Negro?.. – perguntei, intrigado.
O guarda-florestal estremeceu quase imperceptivelmente e benzeu-se.
- Estavas nos teus limites, rapaz, e o cansaço e a febre juntaram-se para te cozinharem um pesadelo – esclareceu. – A Hospedaria do Cavalo Negro é uma lenda dos tempos das quadrilhas que assolavam estas terras. Deves ter lido a respeito em qualquer lado, e o cansaço e a febre encarregaram-se do resto. Anda, vamos ajudar-te a chegar ao jipe! Tens de ser visto pelo médico da vila, e vocês, rapaziada, terão de fazer uma pausa na peregrinação! E não tornem a deixar para trás este malandreco!
- Pode ficar descansado, senhor guarda! – garantiu o meu irmão.
Amparado por dois guardas a caminho do jipe, cambaleando como na manhã seguinte de uma noitada estouvada, senti-me invadir por uma onda de indignação: com que então, pensavam que estava a delirar?...
Decidido a provar-lhes que tinha realmente pernoitado na Hospedaria do Cavalo Negro, enfiei a mão no bolso e soltei um grito de triunfo ao sentir entre os dedos a medalha de bronze; mas qual não foi o meu espanto, ao trazê-la para a luz do dia e deparar com a moeda que oferecera ao mendigo à porta da capela!
Junho 2019
Chegou um separador de divulgação de contos (publicados e inéditos), que espero seja do vosso agrado.
Em breve darei notícias do trabalho programado para 2020.